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Acordo Mercosul–União Europeia pode impulsionar agro no Vale, mas ganhos dependem de preparo, organização e investimento

Com avaliação da Abavar e do Sebrae-SP, matéria mostra como o agro do Vale pode ganhar competitividade no mercado europeu, desde que invista em tecnologia, certificações e cooperativismo

Atualizado em 20/01/2026 às 17:01, por Adilson Cabral.

Ilustração digital que combina as bandeiras do Mercosul e da União Europeia sobrepostas a uma paisagem do Vale do Ribeira, com rio, áreas verdes e montanhas, simbolizando a relação entre o acordo comercial internacional e a produção agrícola da região.

A assinatura do acordo de livre comércio entre o Mercosul e a União Europeia abre uma nova janela de oportunidades para o agronegócio brasileiro e reacende expectativas em regiões com forte vocação agrícola, como o Vale do Ribeira. A ampliação do acesso a um mercado de cerca de 451 milhões de consumidores pode gerar impactos positivos no médio e longo prazo, desde que produtores e cadeias produtivas estejam preparados para atender às exigências internacionais.

De acordo com o diretor de Relações Internacionais e Exportação da Associação dos Bananicultores do Vale do Ribeira (Abavar), Silvio Romão, o acordo tende a favorecer a fruticultura brasileira, incluindo a banana, ao reduzir barreiras tarifárias e aproximar o Brasil das condições enfrentadas por seus principais concorrentes no mercado europeu.

“O acordo abre portas para a fruticultura brasileira, mas exige que os produtores se adaptem a padrões de qualidade mais elevados. Isso pode beneficiar o agronegócio como um todo, porém demanda adequação e investimento para que o País capture todo o potencial do mercado europeu”, avalia.

Segundo dados citados pela Abavar, apesar de o Brasil ser um dos maiores produtores mundiais de banana, apenas cerca de 1% da produção nacional é exportada. Em 2018, 13% desse volume teve como destino a União Europeia, enquanto 43% foi enviado a países do Mercosul. Atualmente, as exportações brasileiras para o bloco europeu estão concentradas principalmente nos estados do Rio Grande do Norte e do Ceará, onde grandes multinacionais investiram em tecnologia, escala e logística.

Com o acordo, a alíquota de importação da banana brasileira na União Europeia deve ser reduzida de 114 euros por tonelada para cerca de 75 euros por tonelada, aproximando-se dos valores praticados para países concorrentes como Equador, Costa Rica e Colômbia. A expectativa é de que essa redução aumente a competitividade da fruta brasileira no mercado europeu ao longo dos próximos anos.

No entanto, Romão faz um alerta. 

“Há preocupação com o risco de aumento do desmatamento e com a pressão sobre pequenos agricultores para que se adequem às exigências do mercado global'

Sílvio Romão

Tecnologia, valor agregado e novos mercados

Na avaliação do Sebrae-SP, o acordo pode impactar o Vale do Ribeira em duas frentes principais: modernização produtiva e acesso a novos mercados. Segundo o consultor de negócios do Sebrae-SP no Vale do Ribeira, Anderson Bezerra de Lima, a redução de barreiras comerciais pode facilitar a aquisição de tecnologias europeias e, ao mesmo tempo, abrir caminho para exportações.

“Com o acordo de livre comércio, os produtores brasileiros poderão adquirir tecnologias de países europeus a um custo mais acessível. A agroindústria, principalmente, poderá se beneficiar com o acesso a maquinários modernos. De outro lado, surge a possibilidade de conquistar novos mercados, especialmente para produtos com valor agregado”, explica.

Para transformar essa abertura comercial em ganhos reais, o Sebrae destaca que o preparo do produtor é fundamental. “É preciso entender as preferências do consumidor europeu, que variam entre países, hábitos culturais e perfis econômicos. Produtos com forte identidade local, certificações internacionais, controle de rastreabilidade e respeito ao meio ambiente garantem um diferencial competitivo”, afirma Lima.

Identidade territorial como diferencial

O Vale do Ribeira já acumula avanços nesse sentido. Em 2024, a região conquistou a Indicação Geográfica (IG) do Palmito Pupunha na modalidade Indicação de Procedência, certificação concedida pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (Inpi). 

 

“A IG fortalece a identidade territorial e aumenta o valor agregado do produto, sendo muito valorizada nos países europeus”

Anderson Bezerra de Lima, consultor Sebrae SP

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Além disso, iniciativas como a certificação das Cadeias Produtivas Locais (CPL) da Apicultura e da Agricultura Familiar, com apoio do Sebrae-SP, ampliam o acesso a recursos e parcerias para fomentar os segmentos produtivos da região.

Cooperativismo e impacto na economia local

Para pequenos e médios produtores, a atuação coletiva é apontada como caminho essencial para acessar mercados externos. “O cooperativismo possibilita a entrega de volumes maiores, reduz riscos de fornecimento e aumenta o poder de negociação. Também viabiliza a padronização de processos, a obtenção de certificações e a aquisição de maquinários, custos que seriam inviáveis individualmente”, explica Lima.

O fortalecimento da produção agrícola tende a refletir diretamente na economia dos municípios. “O aumento da renda do produtor impacta o comércio local, os serviços e a arrecadação municipal. Cada real gerado no agro movimenta vários outros setores. Quando a produção se organiza, o município deixa de ser apenas produtor e passa a ser protagonista do desenvolvimento regional”, conclui.

Assim, o acordo Mercosul–União Europeia não representa uma solução imediata, mas uma oportunidade estratégica. Para o Vale do Ribeira, os efeitos positivos dependerão da capacidade de organização, investimento, cooperação e valorização da identidade produtiva regional ao longo dos próximos anos.